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Süddeutsche Zeitung 21 de maio de 2008

Von Popping und Locking


MICHAELA SCHLAGENWERTH


        Quando o dançarino e coreógrafo brasileiro Bruno Beltrão tinha dezesseis anos de idade, ele sonhava se tornar um famoso dançarino de Hip Hop. Uma pessoa que trouxesse honra e fama à sua cidade natal de Niterói, situada nos arredores do Rio de Janeiro, e a seu país. Em parceria com seu colega Rodrigo, Beltrão criou o Grupo de Rua de Niterói e participou de muitas batalhas e torneios. Muitas vezes ele ganhava , mas quando completou dezenove anos, não quis mais prosseguir. Bruno começou a entender que ele estava mais fascinado pela técnica do HipHop, do que pela sua filosofia – e que essa técnica poderia oferecer possibilidades completamente inéditas e bastante distintas, além daquelas contidas no código de honra, representado por uma mentalidade "Concrete-Jungle" e incessante sobrepujança. Assim, ele começou a fazer experiências e a colocar o HipHop em outros contextos.


            No ano 2000, tendo acabado de completar vinte anos, Bruno Beltrão começou a estudar dança e, no mesmo ano, foi criado o primeiro novo trabalho "Do Popping ao Pop e Vice-versa". Ele trouxe para Beltrão a reputação de  menino prodígio. Desde então, ele é conhecido como aquele, que transformou o HipHop em algo novo, em uma linguagem de arte abstrata. Porém, os adeptos do HipHop não reconheceram o seu mérito. Pelo contrário. Embora Hip Hop na verdade signifique, que em batalhas se procura sempre ser melhor do que os outros e buscar novos movimentos fazendo algo que ninguém tenha feito antes. Porém, ao mesmo tempo, é necessário que, dentro do contexto da riqueza inventiva, se utilize sempre seu próprio vocabulário . Não se pode jamais perder as principais referências do estilo, sejam elas Popping, Locking ou Krumping. Pois todas as outras coisas, segundo os heróis do Hip Hop, diluem a filosofia e estragam a comunidade.


        Bruno Beltrão já foi há tempos afastado da comunidade do Hip Hop, e ele só pode sorrir de forma amigável sobre isso. Com um rosto relaxado e feliz, ele está sentado em um bar de rua na contemplativa cidade velha de Bruxelas. Ele tem agora  28 anos, é uma pessoa doce, simpática, sensível com timidez, cara jovem e bonitos olhos marrons. Em pouco tempo ele tinha abandonado novamente suas aulas de dança, bem como o curso de filosofia. Recentemente, sua peça "H3", que pode ser vista nesta semana de 5ª-feira a sábado no HAU de Berlim, fez um tremendo sucesso na estréia do Festival de Artes de Bruxelas. Na "H3", vêem-se dançarinos se esbarrando, provocando a perda de equilíbrio e, com um salto, deixando colidir seus peitos entre si.


        "Lá em casa, em Niterói", afirma Beltrão, "vou à praia sempre que possível." Em lugar algum se pode aprender tanto sobre movimentos, quanto ao se observar o jogo das águas. Vê-se os nove dançarinos girar como giroscópio em torno do próprio eixo no solo. Em formações separadas, em duplas e em nove, uma vez cruzando todo o palco. Isto produz um efeito deselegante, quase inconveniente, porém quanto mais os dançarinos repetem o movimento, quanto mais trechos longos eles avançam, mais determinado, estranho e arrebatador é seu resultado. Na Companhia, eles chamam isso de "ralo". O simples ato de girar no chão (zulu spin), diz Beltrão, incorpora uma figura emblemática do Hip Hop, pois foi a primeira a ser realizada no solo por um dançarino de break.


Pesquisador com Visão para o Mar


No início da "H3", os dançarinos sentados nas margens se dirigem sozinhos ou em duplas para o placo, apresentam um pequeno número, um pequeno dueto. Mas então, de repente, eles se reúnem em uma formação, se dispersam correndo para trás em presença de luz cintilante, como um bando de pássaros disparando sobre o palco. A Companhia de Beltrão ainda se chama Grupo de Rua, permanecendo fiel ao vocabulário do Hip Hop, mas a violência e dura realidade das ruas brasileiras não são reproduzidas pelo coreógrafo. Ele se preocupa com o espaço, com a percepção, com o contato físico. Ele continua fascinado pelas pessoas, que acreditam em todos esses códigos e regras, nos torneios e nas revistas. Mas a ele próprio se interessa sobretudo no que ocorre quando se abre um conhecimento fechado para algo novo. Quando se chega a uma espécie de processo químico, do qual não se conhece o resultado.


       Beltrão atua como um pesquisador sonhador. Três anos se passaram entre seus dois últimos trabalhos "H2" e "H3". Naquela ocasião, eles sempre estiveram em turnê, sendo que por último no Oriente Médio, em Marrocos, Siria, Tunísia, Egito. Entre as apresentações, ele ficou na sua casa de Niterói, lendo, observando o mar, desenvolvendo novas idéias e novamente descartando-as. Nesse meio tempo, seus dançarinos mantinham seu sustento, dando aulas de streetdance, com apresentações em Feiras ou também na rua. Na verdade, Beltrão é tratado com distinção, porém no Brasil não existe para ele um patrocinador ou um subsídio cultural fixo. E demora até que um número suficiente de co-produtores seja encontrado para um novo e grande trabalho.


            Em "H2", seu último trabalho desenvolvido em 2005, Beltrão combinou os movimentos de cada um dos dançarinos de maneira maluca, continuamente deslocável. Ele os perseguia em amplos círculos sobre o palco, acabando assim com a organização espacial do HipHop e passando para uma outra dimensão. Na peça seguinte "H3" foi acrescentada a questão do contato físico. HipHop é uma dança que não prevê nenhuma interação com outros corpos. Mesmo quando se dança entre si de modo sincronizado e com variação de tempo em shows de Hip Hop, talvez se lançando até uma vez no ar, um contra o outro, a dança continua sendo individual no seu conceito. Não existe contato real, entrega e sustentação de peso, rodopio de movimento mútuo. Cada dançarino permanece sendo uma figura individual.

        Em "H3" vê-se o pequeno corpo de Eduardo Hermanson se abraçar com o grande corpo de Luiz Claudio. Suaves movimentos ondulados percorrem seus corpos, tendo aparência interminável, como a transmissão de choques elétricos, de um para outro. Não se pode mais localizar de onde partiu o movimento, que direção ele assume, ele parece ocorrer ao mesmo tempo em todos os locais. Desajeitadas e algo desassistidas são algumas vezes as tentativas de duplas, porém justamente nelas existe algo de real.

          "H3" é uma expedição a um território desconhecido, reservado, embaraçoso e poético. Na verdade, Beltrão sonha em trabalhar no deserto, lá onde não haja nada, só espaço vazio, onde paisagem e céu se fundem de forma irreconhecível entre si e tudo tem de ser reinventado. É só uma questão de tempo, até que ele chegue a esse local. Primeiro, o Grupo de Rua fará uma turnê mundial.